O amor acordou Ana. Bateu forte em sua porta e, sem a permissão da moça, entrou pela casa adentro. Mas achou a porta pouca e entrou pela janela, entrou pela chaminé e pelas frestas da telha.
O amor foi ao banheiro, foi à pia, foi ao tanque. Deitou na mesa, na cama, sentou no sofá da sala e assistiu Shakespeare apaixonado.
Saiu ao jardim, à horta, saiu para comprar cigarros. Pedalou em uma bicicleta velha que estava na garagem. Andou pelo quarteirão. Visitou a casa do artesão, do padeiro, do professor, do político…
O amor abriu todas as portas daquele condomínio e, naquele dia, todos acordaram sorrindo. Uma sensação de que não havia ontens e amanhãs invadiu as residências.
Homens e mulheres não foram ao trabalho, crianças deixaram de ir à escola. As portas passaram o dia escancarados ao Sol, ao vento, às folhas secas.
Os gatos brincavam com os pássaros no jardim. Os cães se enroscavam com gatos e pássaros.
Um dia que o amor não esqueceu.
Que os homens e bichos queriam eternizar.
O dia em que o amor bateu à porta de Ana.
Homem havia procurado atendimento médico, mas interrompeu o tratamento e morreu após agravamento do quadro.
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