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Ressentimento é uma planta venenosa

De todas as coisas que podem nos acontecer na vida, certo é que incontáveis serão boas, excelentes, extraordinárias, outras sequer perceberemos e outras tantas e muitas, serão dolorosas, decepcionantes,  frustrantes, traumatizantes.

E para essas, a maioria de nós sempre pedirá uma cabeça para cortar. É por demais injusto passarmos por uma tristeza e ainda sermos os responsáveis por ela. Para isso, sempre haverá de ter um culpado, seja ele um indivíduo, uma situação, uma falha, uma força da natureza ou simplesmente uma palavra dita de forma errada. Importante é que se encontre o culpado. E para ele, nenhuma trégua.

Em consequência, pelo tempo necessário –e não raro uma vida inteira – e na proporção do estrago causado, as sementes do ressentimento brotarão e crescerão de forma espantosa, a ponto de tomarem o jardim inteiro, matando o que de belo e puro ainda poderia resistir. E, sem surpresas nem sustos, tudo o que de bom e feliz acontecer depois disso, tenderá a passar desapercebido, como plantinhas rasteiras que sobrevivem um ou dois dias e morrem por falta de luz. A luz que a árvore do ressentimento rouba de todas as outras. A luz das ideias e do desapego às mágoas que nos aponta novos caminhos, novas escolhas, novas cores, novos afetos.

O passado faz parte do que somos hoje, isso é incontestável, mas dele trazemos uma bagagem bagunçada, revirada, leve se pegamos a mala feliz, impossível de carregar se tentamos a mesma coisa com o baú dos desapontamentos.

Mas, voltando ao presente, por vezes nos pegamos pensativos no jardim das emoções, e, para todo o lado que olhamos, cresce frondosa a árvore do ressentimento, com suas folhas espessas, com espinhos nas pontas, cores mortas e enorme mal cheiro. E, tolos que somos, acreditando também isso ser natureza, regamos e cuidamos, sem sequer desconfiar da quantidade de veneno que estamos nutrindo.

Ressentir é sentir novamente. Sentir a primeira vez, doer, sofrer, amargar. Sentir a segunda vez, e mais uma, e mais uma, e mais uma. Julgar e decretar culpas. Banir pessoas, lugares, músicas, perfumes, palavras… Tudo isso junto vira um labirinto de sofrimentos, donde não se sai e só se perde ainda mais. Acabamos por viver buscando a saída, perdidos por entre caminhos que as árvores que nós mesmos plantamos, nos mostram.

Somente no dia em que resolvermos matar de sede as árvores do ressentimento é que elas murcharão e conseguiremos ver os caminhos, as saídas, a vida além do labirinto. E que tenhamos sorte para não tocarmos nos espinhos antes deste dia!

Imagem de capa: Peerayot/shutterstock

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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Emilia Freire

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